Transformação, transição ou integração digital

Transformação, transição ou integração digital

Vivemos tempos de mudança, de adaptação, de alterações a diversos níveis na forma como vivemos. A tecnologia tem sido, de forma agravada nos últimos anos, o factor de aceleração dessa mudança. Transformação, transição ou integração digital (expressão bem cunhada pela Helena Barranha no debate) são algumas das expressões que vamos ouvindo como identificação deste fenómeno que é a inclusão da tecnologia para melhorar, alterar, refazer as soluções, métodos, modelos, etc. utilizados tradicionalmente no trabalho em museus. Foi este fenómeno que o ICOM Portugal pretendeu debater no passado dia 20.

Não foi a expressão que debatemos a convite do ICOM Portugal, mas sim as recomendações do eixo temático “Transformação Digital” do relatório final do Grupo de Projeto Museus no Futuro que foi criado pelo MC para reflectir sobre o futuro dos museus portugueses, ou melhor, sobre o futuro dos museus e palácios dependentes do estado central (leia-se DGPC e DRC). A quem não o fez ainda, aconselho a leitura atenta e crítica, porque certamente irão encontrar muito em que pensar, mesmo que não trabalhem numa das instituições visadas no relatório.

Para a conferência o ICOM Portugal convidou-me a mim, para a grata tarefa de moderação, à Ana Carvalho1 e à Helena Barranha2 como representante da equipa que acompanhou a Clara Camacho na realização do estudo e relatório e como especialista e investigadora na área, respectivamente. A escolha da Ana e da Helena não podia ter sido mais acertada, confesso. É bem conhecido o trabalho de ambas na área dos museus (e da sua relação com o universo digital) e a reflexão que têm desenvolvido sobre o tema em análise.

Cartaz debate
Cartaz do debate sobre Transformação Digital

Ambas começaram por apresentar a reflexão que lhes foi pedida para esta conferência, num ambiente que se espera sempre mais informal e menos cansativo para quem assiste. A Ana e a Helena cumpriram e deram-nos uma visão sobre a forma, método e sobre as preocupações que estiveram presentes na equipa que produziu o relatório, por um lado, e por outro uma visão crítica, ainda assim positiva, do resultado que todos conhecemos.

Da intervenção de ambas gostaria de destacar, por um lado, a forma como a Ana apresentou as questões que estiveram por trás da pesquisa e recolha de informação pela equipa da Clara Camacho, assim como a delimitação do estudo e a preocupação em obter dados fidedignos, a observação dos pares, a visão de outras realidades que não a nossa. São elementos fundamentais para o estudo e para compreendermos as recomendações feitas. Além disso, a Ana resume as diferentes recomendações em 4 áreas que, na minha opinião também, são fundamentais: capacitação, infraestrutura, acesso (digitalização e não só) e parcerias. Nestas áreas são incluídas as diferentes recomendações do relatório para a transição digital que, apenas para recordar, são:

  1. Modernizar e atualizar os equipamentos informáticos internos;
  2. Criar um portal de Museus, Palácios e Monumentos, atualizar e otimizar os respetivos sites;
  3. Criar uma linha de apoio “Museus do Futuro” a projetos de requalificação dos Museus, Palácios e Monumentos;
  4. Criar um programa de reforço e de alargamento sistemático da digitalização dos acervos dos Museus, Palácios e Monumentos;
  5. Assegurar e incrementar o acesso digital às coleções e acervos;
  6. Desenvolver um programa de utilização das tecnologias como meio complementar de interpretação;
  7. Criar mecanismos de apoio, monitorização e avaliação para os Museus, Palácios e Monumentos;
  8. Reforçar o estabelecimento de parcerias na área da comunicação digital;
  9. Promover projetos-piloto de transferência de conhecimento e de investigação;
  10. Assegurar o recrutamento de profissionais com competências digitais especializadas e criar planos de formação regulares.

A partir dali a Helena confronta-nos com a importância da terminologia utilizada, tal como já eu havia feito colocando no twitter a questão entre transformação ou transição (sem grande resposta diga-se de passagem), mas elevando a fasquia através da reflexão mais cuidada e aprofundada do termo integração, ou seja integração digital, em vez de transição ou transformação, procurando dessa forma uma visão mais inclusiva, mas também mais “humanizada” da forma e velocidade com que somos “engolidos” pela tecnologia no dia-a-dia dos museus, ou mesmo, da nossa vida.

Esta é uma questão interessante que importa trazer à liça sem receios, de forma simples e concreta, como a Helena fez. A reflexão sobre questões que nos parecem óbvias e aceites sem grande preocupação ou cuidado é sempre útil, porque nos permite ver por outro prisma determinado problema ou mesmo equacionar as prioridades definidas para a resolução das questões identificadas neste relatório ou noutros semelhantes. Assim, esta integração digital, mais inclusiva e crítica, parece-me apropriada para o momento que vivemos, ainda mais no contexto actual, de “digitalização” de toda a nossa relação profissional ou lúdica com os nossos museus.

A partir destas duas intervenções iniciais, com muito alimento para a discussão, abrimos a porta à discussão com os que nos acompanhavam no zoom e seguiam no Facebook e conseguimos debater assuntos como os recursos financeiros necessários (e existentes) no sector para a transformação digital, a preparação e abertura das tutelas para o caminho que há a percorrer, a alteração necessária em termos de políticas de acessibilidade (e eu diria inclusão), a formação e capacitação dos recursos humanos e a contratação de quadros com formação e competências na área, a atenção para os novos perfis profissionais e novas profissões que se criarão por conta da integração com o universo digital, o planeamento relativo à obsolescência das infraestruturas e dos equipamentos que é necessário acautelar, a atenção necessária para a inclusão destas e doutras despesas que agora surgem e, embora já mencionado pela Ana e pela Helena, a atenção também necessária para um planeamento estratégico, não desligado da estratégia geral da instituição, que abranja as novas questões e meios ao dispor. Mais do que este resumo, convido-os a acompanhar o debate através da gravação que o ICOM Portugal partilha connosco através do seu canal de Youtube.

Conferência Digital – Grupo de Projeto Museus no Futuro – Transformação Digital

Sem falsa modéstia, julgo que conseguimos abordar nesta breve conversa alguns pontos interessantes das recomendações feitas pelo GTMF. Julgo que se percebe que estaríamos muito mais tempo a conversar, eu, a Ana e a Helena, mas também muitos dos que nos acompanharam, sobre as questões trazidas por este documento. Não tivesse ele outro contributo, o que não é, de todo, o caso, teria este importante contributo de colocar o sector atento, a discutir, a debater e a pensar num conjunto importante de desafios que agora têm outro enquadramento e circunstâncias distintas.

Como nota final, diria que o relatório é, em relação ao eixo da transformação digital, bem completo e aborda um conjunto de problemas e questões que o estado precisa de resolver, no entanto, haveria ainda algumas outras questões que poderiam ser levantadas e abordadas como por exemplo, a gestão de direitos (relacionada também com a acessibilidade), a normalização ou a criação de uma plataforma de colaboração mais vasta entre museus, bibliotecas e arquivos do estado central para a dinamização do património cultural guardado nestas instituições.

Teremos certamente oportunidade de aprofundar o resultado do excelente trabalho da Clara Camacho e da equipa que nos deixa este importante contributo para o desenvolvimento do sector. Não o deixemos cair nas gavetas profundas da Ajuda.


1 Ana Carvalho – Investigadora de pós-doutoramento no Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora e membro do Grupo de Projeto Museus no Futuro (2019-2020). Doutoramento em História e Filosofia da Ciência, especialização Museologia e mestrado em Museologia (Universidade de Évora). Colaborou como investigadora principal no projeto internacional Mu.SA – Museum Sector Alliance (2016-2020) sobre os desafios da transformação digital para os museus. É uma das fundadoras da revista MIDAS – Museus e Estudos Interdisciplinares. A sua investigação tem-se centrado em temas do património, da história da museologia e da museologia contemporânea.

2 Helena Barranha – Doutoramento em Arquitetura (Faculdade de Arquitetura, Universidade do Porto, 2008) e Mestrado em Gestão do Património Cultural (Universidade do Algarve, 2001). É Professora Auxiliar no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa e Investigadora no Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, onde integra o Grupo de Museum Studies e coordena o cluster de Arte, Museus e Culturas Digitais. Foi Diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, em Lisboa, de 2009 a 2012, e Coordenadora do projecto unplace: um museu sem lugar, entre 2014 e 2015. As suas atividades de investigação centram-se atualmente no património cultural, na arquitetura de museus de arte contemporânea e nas culturas digitais, temas sobre os quais tem realizado várias conferências e publicações, tanto em Portugal como noutros países. É membro da Associação Acesso Cultura, do ICOM-Portugal e da Europeana Network. Association.

Projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance

Projecto Mu.SA – Museum Sector Alliance

Parece uma infinidade, mas na realidade só passaram 4 anos desde os primeiros contactos que tivemos dos colegas da Hellenic Open University, que conheci através da Mapa das Ideias por causa do projecto eCultSkills (no qual tive uma breve mas muito frutífera participação), sobre a criação de um consórcio para avaliar e procurar melhorar o sector dos museus no que diz respeito às competências digitais necessárias para os perfis de trabalho emergentes que viríamos a conhecer como projecto Mu.SA.

O consórcio, como estava pensado, precisava da participação de um “VET provider” e de um “social partner” capazes de compreender e acompanhar o desenvolvimento do projecto no território português. Em Itália e na Grécia teríamos instituições semelhantes a assumir os mesmos encargos!

Na altura, sem saber muito bem no que me iria meter, depois de perceber o que era um “VET provider” e um “social partner” e de falar com a Paula Menino Homem e com a direção do ICOM Portugal, dei ao Achilles Kameas os contactos da Universidade do Porto e do ICOM Portugal como potenciais parceiros do consórcio. Iniciaram-se os contactos entre ambas as instituições e a UP, através da Faculdade de Letras e o ICOM Portugal, graças à visão da sua direcção na altura, decidiram meter mãos na massa e abraçar o projecto.

Eu fiquei entre as duas instituições, como um tolo no meio da ponte, mas em boa hora assumi com a direcção do ICOM Portugal o compromisso de iniciar a sua participação no projecto, participando na reunião de arranque em Dezembro de 2016 que se realizou em Atenas, na Grécia, juntamente com a UP e a Mapa das Ideias que complementava o “cluster” português do projecto.

DOCKING THE MU.SA SHIP

Atenas – o arranque do projecto

Foram 3 dias cheios em Atenas. Cheios de informação, de nova terminologia, de aprendizagem, de confusões, de novos amigos e de incertezas sobre muitas nuances e questões particulares do projecto que então se iniciava. Na altura não pensei muito sobre o assunto, mas passado este tempo, posso dizer-vos que todos nós, profissionais de museus ou do sector da Cultura, precisamos de ter mais formação nesta área. Adquirir competências para gerir ou participar num projecto europeu é/devia ser fundamental na formação dos profissionais do sector (dos vários sectores em boa verdade).

Chegado de Atenas foi tempo de transmitir ao ICOM Portugal um enorme volume de informação sobre a gestão do projecto, sobre as necessidades, as tarefas que o ICOM Portugal tinha em mãos, a(s) responsabilidade(s) no projecto e as questões administrativas e burocráticas que tínhamos em mãos para resolver.

Uma das decisões fundamentais nesta fase inicial do processo foi a constituição inicial da equipa do ICOM Portugal no projecto. Tínhamos diferentes tarefas previstas (investigação, administração, gestão, produção de conteúdos, etc.) e precisávamos de uma equipa que desse conta do recado e suprisse as necessidades do projecto e possíveis alterações futuras. Conseguimos essa equipa em diferentes momentos.

O José Alberto Ribeiro já tinha sugerido (em muito boa hora) que a Ana Carvalho participasse no projecto. Decidiu também que a D. Olinda Cardoso nos daria o apoio administrativo necessário (que foi excelente durante estes anos) e mais tarde, por sugestão da Ana, juntamos o Manuel Sarmento Pizarro e, por fim, juntou-se a nós o José Barbieri depois de uma recomendação do Mário Antas.

O projecto Mu.SA – trabalho

Após este período inicial, em que todos tivemos um esforço adicional de aprendizagem do que é, como se faz e organiza e que instrumentos são necessários para um projecto deste calibre (o total do projecto em termos de financiamento ascendia a mais de um milhão de euros), começamos aos poucos, ajudados pelos outros parceiros, os trabalhos que nos estavam atribuídos: uma pesquisa sobre os perfis de trabalho emergentes, conduzida pela Melting Pro e aplicada em Portugal, Grécia e Itália, que seria essencial para aferir e decidir se os perfis profissionais emergentes identificados pelo eCultSkills poderiam ser utilizados para a criação dos produtos deste projecto, agora identificados como o caminho de aprendizagem do Mu.SA, um MOOC, um curso de especialização e um estágio final em contexto de trabalho.

Caminho de aprendizagem Mu.SA

Daquele estudo inicial resultaram algumas publicações como Museum Professionals in the Digital Era – Agents of change and innovation, Emerging Job Profiles for museum professionals e Museum of the Future – Insights and reflections from 10 international museums, na qual o ICOM Portugal não teve uma participação direta, mas apenas de apoio aos colegas.

Passada essa fase inicial, o trabalho seguinte (e exigente) era o da criação dos conteúdos dos cursos do projecto: MOOC e curso de especialização. Ao ICOM foram atribuídos 6 módulos. Um para o MOOC: Creative thinking skills; e os restantes para o curso de especialização: Analyse and synthesize information, Resilience, Interpersonal skills, Influence / persuasion skills e Integrity / ethical. Nestes foi essencial o trabalho da Ana Carvalho (na criação e coordenação) e do Manuel Pizarro (na criação de módulos) que, seguindo uma metodologia muito exigente, criaram cada um dos módulos especificamente para a parte do curso, alunos e exigências que foram pré-determinados pelo consórcio nas reuniões preparatórias. Sou testemunho que ambos tiveram um enorme trabalho para alcançar os resultados e a qualidade que o ICOM Portugal pretendia e confesso o orgulho de ter lido nas avaliações dos módulos e ouvido de vários alunos dos cursos o reconhecimento da qualidade dos módulos que produzimos. Devo dizer também que a colaboração do José Barbieri foi também fundamental para o desenvolvimento de alguns conteúdos que o ICOM Portugal produziu neste projecto, como o vídeo sobre Ética, um tema muito caro para nós.

Ética nos museus nesta era digital

Uma boa parte dos conteúdos produzidos pelo consórcio, agora transformados em OERs (Open Education Resources), estão disponíveis para reutilização no site do projecto. Usem e divulguem o quanto quiserem.

Além da produção dos conteúdos, o ICOM Portugal participou também na organização e realização dos diferentes cursos do projecto. Seja com tutorias, acompanhamento de alunos, esclarecimentos sobre conteúdos, discussões nos fóruns do curso, etc. a Ana Carvalho, o Manuel Pizarro e eu próprio, acompanhamos de perto todas as actividades do processo de aprendizagem até ao fim do curso de especialização e, de forma menos intensa, durante o acompanhamento dos estágios nos museus (cujo sucesso se deve ao enorme empenho da UP e, especialmente, da Paula Menino Homem).

Paralelamente a todo este trabalho, eu, a Ana, o Manuel, o José e a D. Olinda, tivemos ainda que gerir o projecto administrativa e financeiramente, promover e disseminar todo o trabalho do projecto, organizar eventos anuais (nacionais e internacionais), criar ferramentas de divulgação, entre muitas outras pequenas, mas consumidoras de tempo, tarefas. Aliás, se há algo que me orgulho particularmente neste projecto, que se deve em grande parte ao empenho da Ana Carvalho, é a divulgação que fizemos durante estes 3 anos e meio. Foram vários artigos e comunicações em revistas e conferências especializadas que trouxeram ao Mu.SA e ao ICOM Portugal, em primeiro lugar, mas também à equipa do projecto, o reconhecimento por parte de diversos colegas, museus, universidades e do próprio ICOM a nível internacional.

A cada passo, o ICOM Portugal deu conta disso mesmo, como podemos ver no site.

Uma nota final de agradecimento

Começamos por ser um conjunto de organizações que se juntaram com o propósito de “abordar diretamente a escassez de competências digitais e transferíveis identificadas no setor dos museus” através da criação das ferramentas de aprendizagem, os cursos e o estágio, e de um conjunto de outros resultados importantes, para acabarmos como um conjunto de organizações e equipas com a convicção do dever cumprido, confirmado pela aprovação do relatório final do projecto pela Comissão Europeia e consequente pagamento da totalidade da bolsa inicialmente prevista.

Neste momento de satisfação e de sensação de dever cumprido, não posso deixar de agradecer à equipa do projecto Mu.SA no ICOM Portugal (à Ana, ao Manuel, ao José e à D. Olinda) pelo fabuloso desempenho e empenho. Não posso deixar de agradecer também às duas direcções do ICOM Portugal que acompanharam o projecto, pelo contínuo apoio e dedicação. Nas pessoas do José Alberto Ribeiro, cuja direcção acolheu o projecto, e da Maria Jesus Monge, cuja direcção o conseguiu finalizar, deixo o agradecimento de todos nós a todos os colegas de ambas as direcções pela coragem em aceitar um projecto tão complexo, mas também tão necessário para os profissionais de museus em Portugal. Não posso me esquecer de agradecer também à Paula Menino Homem, da Universidade do Porto e ao Ivo Oosterbeek, à Ana Fernambuco e à Inês Bettencourt da Câmara, da Mapa das Ideias, membros do fabuloso “cluster” nacional do Mu.SA, por toda a ajuda, colaboração e apoio nos momentos mais difíceis. Por fim, um agradecimento também para todos os parceiros/amigos internacionais do Mu.SA. Em cada um deles conheci pessoas maravilhosas, competentes e empenhadas em fazer o melhor pelo sector dos museus. Muito obrigado a todos!

Acabo este projecto muito melhor do que entrei! A aprendizagem do Mu.SA foi extraordinária e deu-me uma perspectiva diferente sobre diversas áreas do sector dos museus que serão importantes para mim e para a forma como vejo o futuro dos museus a nível internacional. Espero, de forma muito sincera, que após esta pandemia possamos todos aprender que os museus precisam de muito mais que uma simples discussão sobre os benefícios/prejuízos da introdução do “digital”, mas sim de uma reformulação completa dos instrumentos que usamos para a gestão, divulgação, educação e estudo das nossas colecções e dos instrumentos e métodos que usamos para nos avaliarmos. Saibamos nós aproveitar realmente esta oportunidade!

Obrigado uma vez mais a todos!

Definir “Museu”

Definir “Museu”

Há já algum tempo que a definição de museu de lá de casa está fixada. É o local onde o pai, ou melhor, para onde o pai trabalha. Além disso é o local onde vamos para aprender (ou pelo menos tentar), para nos divertir e para conhecer objectos e, através destes, a História, o nosso passado comum e, acima de tudo, pensar um pouco sobre os nossos dias.

Lá em casa, como imagino que em grande parte das casas por esse país fora, a definição de museu é algo que não é verdadeiramente importante. Perdoem-me os meus colegas de profissão, mas é assim que vemos as coisas. O que é realmente importante é o que são na realidade os museus que visitamos, as histórias que nos contam, a forma como nos fazem pensar em assuntos importantes, a ajuda que podem ser, para mim e para a prole, no desenvolvimento dos nossos conhecimento, espírito crítico e consciência social.

Japão

Sei, no entanto, que a definição de museu, tal como a definição de um outro termo qualquer, é importante em diversos casos, dos mais práticos, aos mais académicos, e merece a atenção de todos, em especial, dos que neles trabalham e a que a eles se dedicam de qualquer forma.

Uma nova definição e uma velha definição

o ICOM decidiu, na conferência trienal de 2016 em Milão, criar um grupo de trabalho para estudar e propor uma nova definição de museu. Deu-lhe um prazo de três anos, findos os quais seria levada uma definição nova a Kyoto, este ano, para ser votada em Assembleia Geral. O processo, liderado pela equipa de Jette Sandhall, foi aberto, inclusivo e teve o mérito de “ouvir” todos os que gostariam de propor uma nova definição. Foram feitos debates em quase todo o mundo, Portugal incluído, onde todos os que se interessavam pelo tema, poderam ser ouvidos e debater a necessidade, ou não, de mudar uma definição que carrega o peso da História e cuja necessidade de mudança, relembro, foi votada (se bem me lembro por grande maioria) favoravelmente em Milão.

A definição de museu (ainda actual) que se propunha substituir é:

O museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite.

A definição de museu proposta pela equipa de Jette Sandhall foi a seguinte (tradução da página do ICOM Portugal):

Os Museus são espaços democratizantes, inclusivos e polifónicos, orientados para o diálogo crítico sobre os passados e os futuros. Reconhecendo e lidando com os conflitos e desafios do presente, detêm, em nome da sociedade, a custódia de artefactos e espécimes, por ela preservam memórias diversas para as gerações futuras, garantindo a igualdade de direitos e de acesso ao património a todas as pessoas.

Os museus não têm fins lucrativos. São participativos e transparentes; trabalham em parceria activa com e para comunidades diversas na recolha, conservação, investigação, interpretação, exposição e aprofundamento dos vários entendimentos do mundo, com o objectivo de contribuir para a dignidade humana e para a justiça social, a igualdade global e o bem-estar planetário.

Confrontados com esta proposta de definição, como seria de esperar, a discussão gerou-se. Desde a simples, talvez simplista demais, crítica a uma posição política/ideológica entrelaçada nas palavras da proposta, até às mais sectoriais, como a inexistência da palavra “educação”, chegando às mais processuais, onde se apontava a falta de tempo existente para a discussão desta nova proposta, foram muitos os críticos a este novo texto. E, pese embora a existência de apoio por parte de alguns comités à nova definição, era claro (bastava ter participado nas várias sessões em que o assunto se discutiu em Kyoto) que a proposta apresentada à votação não era consensual e que os comités (Nacionais e Internacionais) preferiam adiar a sua votação.

Museu numa destilaria de Sake – Kyoto, Japão

Eu concordo, devo desde já dizer, com o adiamento da votação. Não porque ache que a proposta é “ideológica”, com alguma agenda escondida (certamente ingenuidade minha), ou não concorde com a visão expressa naquele texto sobre o que os museus devem perseguir, mas sim porque o acho mais do que uma definição de “museu” e, assim sendo, é importante (na discussão de uma definição) não esquecer a definição de “definição”:

de·fi·ni·ção
(latim definitio, -onis)
substantivo feminino

  1. Explicação clara e breve.
  2. Decisão em matéria duvidosa.
  3. [Retórica] Exposição dos diversos lados pelos quais se pode encarar um assunto.
    “definição”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/defini%C3%A7%C3%A3o [consultado em 13-09-2019].

Ora de forma clara e breve, não é assim que se descreve o que é um museu. Não arrisco dar aqui, porque acho que é um trabalho que deve ser feito em equipa, com base em leituras várias (que reconheço não ter feito e que mesmo que tivesse, não arriscaria numa interpretação a solo), a ouvir os profissionais, mas também quem nos visita e utiliza os nossos recursos (sejam eles investigadores, escolas, visitantes, políticos, etc.) de uma forma aberta, sem receios injustificados e com um processo tão inclusivo quanto possível.

Não me interpretem mal. Eu acho que o processo que o ICOM seguiu teve os seus méritos e as suas falhas, mas perguntem aos vossos filhos, aos vossos familiares, a amigos que não trabalhem em museus, ao senhor do pão e ao mecânico, quantos deles ouviram sequer que discutimos, nos últimos tempos, o que é a definição de museu? Sou capaz de apostar que poucos saberão, mas posso estar errado. Não seria interessante chamar a sociedade a esta discussão? Não teríamos aqui uma oportunidade para que nos olhassem com maior atenção? Uma atenção que poderia dar frutos no futuro, sabendo as pessoas o que é, na realidade, um museu?

Para alguns, bem sei, esta é uma discussão técnica. Não deve ser tida fora daqueles que conhecem o museu no seu âmago, as suas entranhas e a indiscutível necessidade da sua existência como instituições permanentes que têm como maior propósito levar aos seguintes, o que os anteriores nos deixaram. Entre esses, como é óbvio, também eu estou, mas não posso esquecer nunca que o que nos deixaram os nossos antepassados pode, aliás deve sempre, permitir que questionemos o nosso passado e presente e, desta forma, abrir horizontes para um futuro melhor. Não utilizar as colecções dos museus para nos questionarmos, é negar o que grande parte dessa enorme herança significa em termos da construção da sociedade ocidental, democrática e plural.

Museu Nacional do Manga – Kyoto, Japão

Não arrisco, como disse atrás, uma nova definição, mas sei, com certeza, que museu quero para os mim e para os meus filhos. Quero um museu que me faça pensar, que me permita admirar, que me ajude a criar, que me faça chorar, que tenha locais para ler e conviver com amigos e família, que seja pro-activo e não reactivo, quero um museu aberto e inclusivo, quero um museu que me queira, que queira os meus e faça tudo o possível para os chamar a conhecer as colecções e a pensar com elas o passado e o presente.

Isto não tem nada a ver com a definição de museu. Tem a ver com aquilo que cada museu realmente é ou quer ser.

Museus Hiperconectados: Novos Desafios e Perspectivas – entrevista

Museus Hiperconectados: Novos Desafios e Perspectivas – entrevista

No último número do boletim do ICOM Portugal encontram uma entrevista que dei à Ana Carvalho sobre os desafios da aplicação da tecnologia nos museus e do actual momento destas instituições face ao mundo digital em que vivemos. Este número do boletim centrou-se no tema proposto este ano pelo ICOM para o Dia Internacional dos Museus “Museus Hiperconectados: Novos Desafios e Perspectivas” e trabalhando eu há alguns anos em museus e tecnologias a Ana lembrou-se de mim para esta conversa e eu agradeço reconhecido pela oportunidade de falar sobre vários assuntos que me interessam em termos académicos e profissionais.

Na entrevista, como poderão ler aqui, começamos na minha visão do estado actual da questão, até a uma perspectiva do que irá ser o futuro, não esquecendo as questões que agora se têm colocado relativamente às tecnologias utilizadas pelos museus e nos museus. Haveria sobre este assunto muito mais a dizer e certamente outras visões, bem mais informadas do que a minha, poderiam completar o que me parece ser o actual panorama. No entanto, julgo ter abordado uma boa parte das minhas inquietações sobre a relação, nem sempre estimada, museus/tecnologia.

Nela abordo também, dado que a relação é directa, a ausência total de uma verdadeira política museológica no país que possa preparar os museus para enfrentar os desafios digitais (e outros) de forma consequente e a médio prazo. Esta ausência afecta, em meu entender, a definição de equipas, de conteúdos, de competências, de recursos, etc. que possam levar os museus portugueses a competir com outros equipamentos culturais. Afecta também a capacidade de organização em rede pelos museus e vai acabar por desperdiçar o muito que foi conseguido em tempos com a Rede Portuguesa de Museus. Afecta a ligação dos museus com a academia como lugares relevantes para a experimentação,  inovação e integração. Esta ausência de política museológica em Portugal afecta de forma transversal todas as áreas do museu e, como tal, mesmo não sendo um desafio digital, julgo que será o maior que temos em mãos.

O restante boletim é excelente, na continuação do importante trabalho que a Ana Carvalho tem tido nos últimos anos, por isso recomendo vivamente a leitura e aguardo alguns comentários vossos sobre a entrevista se assim quiserem!

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Cultura precária e cultura da precariedade – como sair daqui?

Cultura precária e cultura da precariedade – como sair daqui?

Amanhã retomo as voltas que costumo fazer pelos museus do país com quem trabalho. Serão três dias com colegas de diversos museus algarvios para falar sobre a documentação das colecções, o inventário, necessidades dos seus sistemas de informação, novas potencialidades, novos projectos, entre outros assuntos que sobre sistemas de informação dos museus que certamente serão tratados.

Estas minhas andanças têm se revelado, ao longo dos anos, uma excelente forma de tomar o pulso à situação dos museus e dos colegas que aí trabalham e permitem-me também construir uma espécie de indicador (nada científico) do estado da museologia portuguesa. Vejo-o como uma espécie de quadro geral sobre a saúde dos museus e, na minha cabeça, os diversos estados são representados por “smileys” ou “emojis” que vão do famoso contente, até ao zangado, passando por diversos estados.

Este indicador têm sofrido uma queda constante nos últimos anos. Recordo com saudade os idos anos da criação do IPM e da Rede Portuguesa de Museologia, da junção do IPM com o IPCR no IMC, da publicação da Lei-quadro de Museus e da sensação, penso que generalizada, que teríamos os instrumentos necessários para não voltar atrás e as condições para o desenvolvimento da museologia e museus portugueses. No entanto, e ao contrário da maior parte das previsões e vontade de muitos colegas, hoje estamos, no tal indíce, com um “emoji” completamente triste e deprimido. Então e como chegamos aqui? O que falhou? Onde falhamos?

Cultura da precariedade

Este texto foi motivado, devo dizer, pelo texto publicado no Facebook por Helena Miranda, uma colega que trabalha no Museu da Música há 10 anos e que mantém com o museu uma relação profissional de completa precariedade. Coloco aqui o texto para que o possam ler com os vossos olhos.

O testemunho de Helena Miranda, que tem sido partilhado por diversos colegas desde que foi publicado, é um de tantos que vou ouvindo, mas reafirma (no caso com uma boa dose de coragem que saúdo) a continuidade de uma situação que eu vivi no final dos anos 90 e que, desde então, se tem mantido em diversas entidades públicas, apesar dos contínuos anúncios de medidas por diversos responsáveis de diferentes governos que visam, segundo os próprios, dar dignidade ao sector e resolver de uma vez por todas esta matéria. Apesar dessas boas intenções, o resultado que temos agora é péssimo. Temos uma Rede Portuguesa de Museus que é inoperante, uma direcção geral de património que está asfixiada, uma Lei-quadro de museus que não é cumprida ou respeitada pelos diversos governos, museus que fecham, museus que não têm quadro de pessoal (ou que está todo a caminho da reforma sem a necessária renovação das equipas), museus que se mantêm abertos com o esforço de um, vá dois técnicos, descontinuidade de programas de proximidade com as comunidades, colecções sem as condições devidas, enfim… um conjunto de situações de que vou tomando conhecimento e que são motivo para a frustação e desmotivação que sinto entre os profissionais de museus.

Cultura precária

A manutenção desta situação e as consequências que daí advêm são fáceis de prever. Se continuarmos este jogo de empurrar com a barriga os diversos problemas do sector cultural e dos museus em particular, teremos, num futuro não muito distante, deixado um legado miserável a quem nos suceder. É mais do que tempo de deixar para trás a situação de Cultura precária em que nos temos vindo a afundar e aproveitar uma das melhores e mais bem formadas gerações de profissionais na área dos museus, com provas dadas a nível internacional, dando-lhes a oportunidade de contribuir activamente para o desenvolvimento dos museus no nosso país.

Tenho a certeza que são muitos os profissionais de museus com qualificações para levar por diante esta tarefa de retomar o bom caminho, mas para tal é necessária uma verdadeira vontade e um compromisso sério por parte dos responsáveis políticos do sector.

Um compromisso que veja a cultura e os museus não apenas através da quantificação dos visitantes aos museus, mas como um investimento que dá retorno através do turismo, que veja a importante ligação entre museus e escolas, onde os primeiros devem ser encarados como lugares de complementariedade dos programas escolares, que veja os museus como um fórum de discussão e debate participativo e não como instrumento político de propaganda, que veja no museu um papel activo na transformação da sociedade actual e não meramente o espelho do seu passado “glorioso”, enfim um compromisso que permita deixar para o futuro uma situação condicente com os excelentes profissionais que temos.

Nos próximos dias terei certamente a oportunidade de falar sobre este e outros assuntos com vários colegas algarvios, mas acho que é necessário criar as condições para que a nossa voz e a voz das associações que nos representam voltem a ser atentamente ouvidas. Algumas destas questões têm sido levantadas pelo ICOM Portugal nos locais próprios, mas a sensação é que os interlocutores têm “ouvidos de mercador”. Como tal é importante que todos possam contibuir para discutir estes assuntos e, em breve, teremos uma assembleia geral do ICOM Portugal onde estes assuntos podem e devem ser discutidos amplamente. Acho que seria uma excelente oportunidade para tentar colocar estes problemas na agenda mediática.

ICOM 2016 Milão – Notas da Conferência Geral

ICOM 2016 Milão – Notas da Conferência Geral

ICOM 2016 - Entrada

ICOM 2016 – Entrada

A Conferência Geral do ICOM teve lugar este ano em Milão, Itália, entre os dias 3 e 9 de Julho, no Centro de Congressos daquela cidade, tendo como mote “Museus e Paisagens Culturais”, tema que tinha já servido para as celebrações do Dia Internacional de Museus este ano. A conferência geral é sempre uma oportunidade para aprender e conhecer mais sobre a comunidade profissional dos museus. Este ano, pela proximidade a Portugal e pela presença maciça (mais de 3000) colegas das mais diferentes regiões do mundo, o ICOM 2016 foi uma excelente ocasião para alargar horizontes e percepcionar as diferenças e semelhanças em museus de todo o mundo.

Neste texto procurarei falar de duas realidades distintas: a participação portuguesa na conferência geral e as actividades, bem como a minha participação, no comité internacional de documentação, o CIDOC. Começo pela primeira, por razões óbvias.

 

A participação portuguesa no ICOM 2016

Tal como disse acima, este ano o local e tema da conferência proporcionaram as condições para uma participação considerável de colegas portugueses. Assim de repente, sem puxar muito pela memória, estive com mais de uma dezena de colegas portugueses em Itália. Destaco alguns em seguida.

Desde logo o Presidente do nosso Comité Nacional, José Alberto Ribeiro, que juntamente com a Joana Sousa Monteiro, o Mário Antas e a Dália Paulo nos representaram nas tarefas mais administrativas da conferência, participando nas assembleias gerais, votações e discussões sobre o futuro do ICOM a nível internacional. Uma tarefa de enorme responsabilidade que desempenharam, como sempre, com a maior dedicação e empenho. A juntar a este importante trabalho é importante salientar que a Joana e o Mário foram eleitos para cargos de direcção nos comités internacionais de que fazem parte. A Joana Sousa Monteiro foi eleita Presidente do CAMOC e o Mário Antas Vice-presidente do CECA. Dois comités internacionais muito relevantes no contexto internacional e que serão exigentes para ambos. Os meus votos de sucesso para ambos.

A seguir, não o posso deixar de referir, o Luís Raposo, agora presidente da Aliança Regional ICOM Europa, que fez um notável trabalho a apresentar uma linha de acção para revitalizar o trabalho desta importante aliança de diversos comités nacionais do ICOM. Aproveito para desejar ao Luís o maior sucesso nesta grande tarefa que tomou como sua e para lhe dar os parabéns por este importante cargo que deve ser visto como um orgulho para a comunidade museológica nacional.

Uma outra amiga e colega que não posso deixar de referir é a Marta Lourenço, arguente principal na minha tese de doutoramento, agora empossada como Presidente do UMAC, secretária da anterior direcção do ICOM Portugal e uma das vozes mais sábias que conheço sobre colecções e museus universitários. É a certeza, tal como acontece nos outros 3 casos, que o UMAC estará muito bem entregue, pelo menos, nos próximos 3 anos. Sucesso é o que desejo, uma vez mais, nas suas funções.

Além destes que merecem um destaque pelas funções que agora assumem, tive também o grato prazer de rever e conversar um pouco com bons amigos e colegas como a Aida Rechena, o Pedro Pereira Leite, o Mário Moutinho, a Lorena Sancho Querol, o Manuel Furtado Mendes, a Beatriz Crespo, entre alguns outros que vi nos corredores. A estes juntam-se os companheiros habituais de viagem, Fernando Cabral e a Natália Jorge, e a amiga Juliana Rodrigues Alves que sendo brasileira, juntou-se à comitiva portuguesa por ser aluna no doutoramento de Museologia da FLUP.

Foi, do que conheço, uma das melhores e mais profícuas participações portuguesas nas conferências gerais do ICOM. Não só pelas conquistas conseguidas pela museologia portuguesa, mas acima de tudo pela competência demonstrada e pela enorme participação relevante que tivemos em diversas áreas do panorama museológico internacional. Diria, que se não fosse as famosas “lunch-boxes” o ICOM 2016 teria sido perfeito.

Podem consultar aqui um pouco do que se passou em Milão através da #ICOMilano2016.

 

O CIDOC e ainda a participação portuguesa no ICOM 2016

CIDOC AMG

© Gabriel Bevilacqua

Tal como já tinha escrito aqui, este ano apresentei a minha candidatura à direcção do CIDOC. Não vou enumerar de novo as razões que me levaram a tomar esta decisão, poderão ler a minha declaração no link anterior, mas o certo é que consegui convencer os membros deste comité internacional, onde tanto já aprendi, a votar em mim. Ora portanto, este vosso amigo é agora membro ordinário (nunca tive um nome de cargo tão apropriado) da direcção do CIDOC.

É, antes de mais, um enorme orgulho para mim esta eleição. Mas acima de tudo é uma enorme responsabilidade que espero saber cumprir com a maior dedicação. A documentação de museus, tal como vários colegas frisaram, é uma tarefa fundamental para todas as actividades dos museus. No entanto, pode e deve servir o seu propósito de maneira mais eficiente e capaz, procurando lidar com as questões da gestão de informação nos museus de uma forma integradora e aberta, promovendo a acessibilidade e a utilização das colecções pelo público nas mais variadas formas e contextos. O contributo que tentarei dar diz respeito a uma maior cooperação entre comités internacionais e nacionais no sentido de todos contribuírem para melhorar a forma como documentamos e gerimos os nossos museus e colecções em benefício do público.

Estarei sempre à disposição de todos os que necessitarem de algo em que o CIDOC possa ser útil e terei todo o gosto ser o vosso canal de acesso à direcção deste comité internacional do ICOM.

 

A Conferência Anual do CIDOC

Importa salientar que os comités internacionais do ICOM aproveitam a conferência geral para realizar as suas próprias conferências anuais nos anos correspondentes. Esta situação tem algumas vantagens, mas no caso do CIDOC, um comité iminentemente técnico, levanta algumas questões operacionais por causa das reuniões dos grupos de trabalho. Pese embora estes constrangimentos, este ano o comité decidiu seguir o modelo de conferência completo, com reuniões de grupos de trabalho, chamada para artigos e assembleia geral. Além desta intensa actividade, decidiu também pela realização de um evento, fora de Milão, que procurou explorar, de forma mais prática algumas das questões em debate na documentação de museus. Ambos os programas (conferência e workshop) podem ser consultados na página do CIDOC.

Este ano tive a oportunidade de apresentar, com a Renata Motta, coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico (UPPM), da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, uma comunicação intitulada “Implementing Standards at Sao Paulo State Secretariat of Culture museums”. Nela procuramos mostrar o enorme trabalho de estudo e implementação de normas que a SEC-SP tem desenvolvido na última década, efectivado recentemente pela aquisição de um novo sistema de gestão de colecções para os museus que tutela, para o qual a utilização de diferentes normas (terminologias e procedimentos) tem sido um eixo de actuação central.

Além da nossa comunicação, como poderão ver no programa da conferência, foram apresentados trabalhos muito interessantes nas diferentes áreas da documentação museológica. Em breve darei nota mais detalhada sobre as diferentes sessões num texto que será publicado no boletim do ICOM Portugal. No entanto, quero aproveitar a ocasião para vos dizer que muito mais do que saber destas actividades por voz de terceiros, é fundamental que todos os que se interessem por esta (ou outras temáticas) participem nas conferências anuais dos diferentes comités. São momentos de partilha e aprendizagem fundamentais para todos os profissionais de museus.

Para melhor perceberem o que perderam aqui fica o que foi dito nas redes sociais com a #CIDOC2016.

 

Um agradecimento final

Antes de concluir este texto, não posso deixar de agradecer profundamente a todos quantos me felicitaram nos últimos tempos por telefone, mail, redes sociais, etc. pela minha eleição. É importante ter o vosso apoio, mas mais importante será conseguir que mais alguns possam participar activamente nos trabalhos que se desenvolvem no âmbito do comité. Para deixar apenas um exemplo da forma como podem participar, indico-vos o trabalho que está a ser desenvolvido pelo CIDOC na criação de uma Enciclopédia da Prática Museológica (Encyclopaedia of Museum Practice* no original) e que tem como objectivo reunir os termos e conceitos utilizados na nossa prática, apresentando as suas definições em diversas línguas. E sim… já temos lá o nosso Português e o Português do Brasil. Só faltam vocês a contribuir.

Acabou o ICOM 2016 e já se prepara o ICOM 2019 (será em Kyoto no Japão, por isso comecem a poupar).

* a ideia de criar esta Enciclopédia teve origem nesta importante, mas esquecida obra do ICOM Hungria e CIDOC.