Uma pandemia no Museu

Se estão a pensar que o título deste post é uma referência à série “Uma aventura” da Ana Maria Magalhães e da Isabel Alçada, acertaram em cheio! Uma pandemia nos museus, uma pandemia na escola, uma pandemia no teatro, uma pandemia no café, uma pandemia na mercearia, e por aí fora, poderia motivar uma das melhores séries para o tempo em que vivemos. Uma pandemia no Museu, procura, sem o arrojo de me aproximar da qualidade das autoras acima mencionadas, ser o mote para a reflexão que tenho feito sobre o que será o Museu neste tempo e no futuro.

O Museu Nelson-Atkins recebeu alguns visitantes inusitados: pinguins.
Imagem daqui.

Nestes últimos meses em Portugal, na Europa e no restante mundo, assistimos a um surto pandémico de um vírus que tem uma forma (ou formas) de contágio que permitiram uma propagação como nunca visto à escala mundial. A pandemia meteu-nos a todos dentro de casa (vá quase todos que há sempre quem ache que isto é uma gripezinha) e tem espalhado o caos em todos os sectores de actividade. Aviões parados, hotéis fechados, fábricas sem produção, teatros sem espectadores, museus sem público e uma lista que não acaba!

Podem dizer o que quiserem, mas não vejo, muito sinceramente, como é que alguém se prepara para uma situação destas. Não me parece também que a poderíamos, apesar dos avisos de Hollywood, esperar ou prever. Vivemos numa época em que as condições sanitárias e de saúde com que contamos normalmente na maior parte dos países desenvolvidos deveriam bastar para conter, ou mitigar pelo menos, a evolução desta situação, mas a realidade é sempre capaz de nos mostrar que, ainda assim, não somos deuses, que a condição humana é frágil.

Cultura e a crise

Para a Cultura, em geral, a situação é muito grave. Por muito esforço que façamos, é difícil encontrar uma área deste sector que não dependa de um contacto direto com o público (ou entre o público). Museus, Bibliotecas, Arquivos, Arte, Teatro, Música, Cinema, Festivais, Dança, Circo e por aí adiante, não vivem sem esse contacto de proximidade que agora lhes é negado pelo COVID-19.

Apesar da gravidade ser transversal a todo o sector, é notório que as diferentes áreas merecem (e tiveram) diferentes respostas. Sei que os teatros ainda não estão abertos, que não teremos festivais ou que não iremos ao cinema da mesma forma que faziamos a.C (antes do COVID), enquanto que, no momento em que escrevo, já alguns museus abriram as portas e começaram a retomar, ainda que muito condicionados, a sua actividade. Por isso mesmo, neste texto apenas falarei da realidade dos museus que poderá ser mais fácil do que outras realidades.

Assim que fomos confrontados com o crescendo da pandemia e o governo, juntamente com as autoridades sanitárias, declarou o estado de emergência (o mais grave dos estados de alerta) os museus fecharam. No entanto, ao ler a definição de Museu do ICOM, percebemos que o museu é uma “instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público…”! Ou seja, fechado é o oposto da essência do museu e fechados dificilmente conseguem cumprir a missão a que se propõem.

Claro que todos sabemos que o tempo é extraordinário e que fechar museus (instituições culturais no geral) foi uma medida extraordinária e, de resto, temporária como se tinha previsto. No entanto, gostaria de salientar alguns pontos que me parecem importantes na reação dos museus e sector nesta fase.

Duas velocidades ou mais

O primeiro é que o país tem vários andamentos, várias velocidades, no que diz respeito à resposta que os museus podem dar em situações extremas.

Há museus que respondem de forma interessante, como aconteceu com o Museu de Lisboa, reforçando a sua presença nas redes sociais e utilizando um conjunto de recursos interessante como as visitas virtuais, as histórias dos bastidores e das suas equipas, a criação de quizzes para os seus públicos, entre outras. Nesta linha, tivemos também uma boa série de vídeos do MNAA sobre objectos da colecção e ainda, numa resposta ao aumento da procura do digital, outros museus que publicaram as suas colecções online, como o MUDE, por exemplo, e outros que as actualizaram como o Museu Municipal Santos Rocha.

Anísio Franco, subdirector do Museu Nacional de Arte Antiga (à esquerda), e Joaquim Caetano, director, têm filmado todos os dias um vídeo que divulgam na Internet
©Publico

Por outro lado há museus que ficaram completamente restringidos na sua acção. Museus que reduziram as suas equipas e as colocaram em layoff, museus que não tinham/têm os recursos, meios ou competências para abraçar de repente o digital, museus cujos os públicos são maioritariamente escolas e comunidade local que ficaram em confinamento ou restringidos à tele-escola, museus ainda que não tiveram capacidade de reacção, porque simplesmente têm uma equipa de uma pessoa que agora está em casa, a acompanhar os seus filhos.

Estes dois lados já bastavam para percebermos que temos diferentes velocidades no sector dos museus, mas há ainda um, talvez o mais dramático, que é o caso dos museus que tiveram uma reacção absurda e que convém registar para memória futura, como aconteceu com o caso conhecido das dispensas em Serralves que motivou uma resposta à altura por parte da comunidade de profissionais de museus.

E uma política cultural…

O segundo é que Portugal carece, desde há muitos anos, de uma verdadeira política para a área da Cultura, pensada a médio e longo prazo, que possa ser conciliada/estruturada/pensada (e sei lá bem mais o quê) com outras áreas como a Educação, o Turismo, o Ambiente e a Economia, mas que seja verdadeiramente autónoma e emanada da Ajuda e não das Necessidades, do Terreiro do Paço ou da Horta Seca. A ausência de uma política cultural séria e pensada a longo prazo é um erro que muitos têm apontado aos últimos governos portugueses. Uma denúncia de erro com que concordo e que nos tem fragilizado em relação a outros países europeus, nomeadamente com a Espanha, aqui ao lado. Mas acima de tudo é um problema que expõe, em alturas de crise como esta, as deficiências na resposta a crises repentinas. Para dar apenas um exemplo, recordo que o primeiro apoio que o Ministério anunciou para responder à crise e às dificuldades dos profissionais do sector, foram de menor valor (cerca de um milhão de euros) do que o que a Câmara Municipal de Lisboa concedeu. E isto ao mesmo tempo de um anúncio de apoio de 15 milhões de euros ao sector da comunicação (o mais beneficiado da área de governação).

Casal mascarado de “Bonnie e Clyde” dá cabaz alimentar e 151 euros à ministra da Cultura
© TVI

Digital vs Físico – uma luta falsa

Um último ponto prende-se com uma outra pandemia, que pensava já ter sido ultrapassada, mas ainda parece estar a assustar muitos a acreditar no que vou lendo em blogs, jornais, redes sociais e afins. A eterna luta (inexistente a meu ver) entre o físico e o virtual, o real e o digital, que agora foi trazida à baila em alguns debates e que, em meu entender, é absurda!

Parece óbvio a todos nós (pelo menos a mim) que o que evitou uma ausência total dos museus nas nossas vidas nestes últimos dois meses, foi a existência do digital. A existência de conteúdos digitais que nos chegam às mãos por telemóvel, tablet ou computador foi, em muitos casos, um recurso precioso para o ócio, aprendizagem, pesquisa e outros fins bem interessantes. Julgo que com esta amostra ficamos todos ainda com mais vontade de retomar as visitas aos museus, não? Eu fiquei e começarei, assim que puder ir aos que mais me chamaram a atenção neste período.

Estamos a passar para uma segunda fase. Já abrimos os museus, os teatros irão reabrir, o cinema também, precisamos de ter os cuidados indicados pelas autoridades de saúde e temos que nos adaptar a esta nova situação (que é estúpido pensar como um novo normal), mas assim que conseguirmos pensar noutra coisa que não a reacção e as medidas de mitigação das situações difíceis que a crise criou, e são muitas, espero que exista, de uma vez por todas, a vontade de nos sentarmos e discutir o que tem que mudar na Cultura, nos Museus, para que deixemos de ter o pandemónio que temos há tantos anos. Que seja breve esta Pandemia nos museus.