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Da “mercantilização da Cultura” (ou dos jantares no Panteão)

A velocidade das reacções, nos dias que vivemos, é marcada quase exclusivamente pela necessidade de afirmação da voz própria num mundo de milhões de vozes que a net propicia. É desavisada para alguns, mas ainda assim insistem continuamente no erro mostrando indignação com tudo e mais alguma coisa. O jantar no Panteão, ou melhor, os jantares no Panteão são mais um caso que demonstra a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre os temas envolvidos.

Em primeiro lugar, e para que fique bem claro, parece-me completamente desajustado que se possam fazer jantares de qualquer espécie no Panteão (mesmo que a sala específica não tenha restos mortais). É um local de homenagem aos melhores da Nação e deve ser respeitado enquanto tal. Pode até parecer obtusa esta minha opinião, mas a simbologia de locais como este é importante para a nossa cultura e identidade e julgo que isso deveria merecer uma análise mais cuidada sobre a autorização de eventos em locais como aquele.

Uma outra situação que me enerva profundamente é ler, na imensidão de comentários e publicações e posts e twitter, a indignação de uma quantidade considerável de pessoas, a maior parte delas que certamente visita o Panteão diariamente, aliás da mesma forma que vai frequentemente a museus e monumentos, batendo no peito e clamando contra a situação e que raramente vejo a falar sobre os fracos recursos financeiros que as instituições na área da cultura têm disponíveis e que as obrigam a “vender” espaços para a realização de eventos de toda a espécie. Se calhar era bom pensar um pouco mais sobre o assunto antes destes momentos de indignação.

By Carlos Luis M C da Cruz (Own work) [Public domain], via Wikimedia Commons

Aliás, é sobre este último ponto que gostaria de reflectir um pouco. Eu não sou contra, por princípio, que se aluguem espaços em monumentos, palácios, museus e afins. Reconheço que são locais procurados para tal exactamente pela simbologia e pela beleza que encerram e, como tal, ajustam-se ao que o mercado procura em termos de prestígio de determinado evento. No entanto, o rendimento que este tipo de aluguer representa deveria ser, em sentido restrito, uma fonte de receita adicional para que os museus, monumentos, palácios e afins possam ter os meios para concretizar projectos específicos de investigação, educação, acessibilidade, etc. e não, tal como tem acontecido, como suporte ao exíguo orçamento que têm para o seu funcionamento regular, ou seja, para manter as portas abertas. Não me parece que isto seja propriamente “mercantilização da cultura” como também vejo agora apregoado, mas enfim!

Quero com isto dizer que a discussão a ter, que é bem maior, vai de encontro ao mítico 1% de orçamento para a Cultura (que ainda assim me parece curto). Se assumimos a indignidade de ter eventos como este no Panteão, temos que perceber que o problema não está num despacho que não autoriza directamente estes eventos, mas sim que a autorização deles depende (em parte) do valor que eles representam para estas instituições e de uma análise casuística que é da responsabilidade de quem tutela (no caso específico da DGPC e do Ministério da Cultura que não ficam muito bem na fotografia neste caso).

Por último, e para todos os que só se preocuparam com este assunto por razões de arremesso político (de todos os lados), por parecer estar na moda criticar a Web Summit e os eventos paralelos, por não ter mais nada que fazer e razões semelhantes, fica aqui o meu singelo conselho: arrumem uma vidinha!