Miró e estratégia

O título deste post poderia ser (escolha o leitor o que prefere): Miró e gestão de colecções, Miró e planeamento, Miró e política cultural, etc. Não irei, como compreenderão, abordar a importância da colecção Miró do antigo BPN, agora paga por todos nós, pertença do Estado, porque não detenho o conhecimento suficiente para avaliar a sua qualidade, mas gostaria de abordar a questão da sua venda ou incorporação nas colecções do Estado do ponto de vista da estratégia e política cultural nos museus portugueses.

Ao que tenho lido e ouvido dos mais diversos sectores a discussão centra-se no facto de ser impensável que o Estado possa vender uma colecção como esta dado o seu valor artístico e patrimonial. No entanto, não consegui perceber o que fará o Estado com a colecção se não a vender. As obras integram a colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea é uma das opções (a que me parece mais válida de tudo o que li… e acreditem que li muitos disparates), mas ao ler a missão do Museu do Chiado “Coleccionar, conservar e apresentar um acervo público de arte portuguesa de 1850 até à actualidade, bem como estimular o seu conhecimento fruição e confronto com práticas artísticas de outras nacionalidades” parece-me que a sua integração nesta colecção vai contra a própria missão do Museu, não é? A não ser, e aí retiro o que disse atrás, que o confronto com as práticas artísticas de outras nacionalidades tenha sido pensado para a contínua incorporação de obras de autores estrangeiros, o que me parece pouco exequível, e não com a perspectiva de organização de exposições temporárias que facilitassem esse confronto. Ainda assim, e aceitando que não via contra a missão do museu, a decisão da sua incorporação iria de encontro à política de colecções do museu? Não haveria outras necessidades a suprir no âmbito da arte portuguesa? São inúmeras as questões levantadas.

Se não fosse no MNAC poderíamos verificar, no panorama nacional, que outro museu poderia ficar com a colecção em depósito (Serralves é uma opção? Perdoem-me o desconhecimento sobre a constituição da sua colecção e limites temporais associados) e resolvia-se o facto de “perdermos” uma colecção com a importância que esta tem/terá para o país. Seria uma opção válida à partida se houvesse definição clara dos propósitos que nos levaram a investir (sim nós contribuintes pagamos bem caro por aquela colecção) um bom dinheiro na sua aquisição. Mas será que esses propósitos estão definidos? Será que temos uma política cultural? Ela resulta em alguma estratégia de actuação no desenvolvimento das colecções dos museus portugueses?

Eu, infelizmente, acho que não. Não a temos na Cultura e nas restantes áreas. Se a tivéssemos, ainda que só na Cultura, a justificação para esta venda poderia ser a compra de outras obras que pudessem completar a colecção do MNAC ou de qualquer outro museu tutelado pelo Estado. Se a tivéssemos na Cultura e noutras áreas poderiam dizer-nos que o montante que resulta da venda destas obras serviria para providenciar melhores meios para investigação científica ou para o Serviço Nacional de Saúde, por exemplo. E este é um dos maiores problemas, transversal a todas as áreas, que o país enfrenta. Não temos uma política definida e isso resulta, sempre, em navegação à vista.

A discussão sobre a colecção de Mirós do BPN entre governo e oposição é o espelho do desgoverno em que uns e outros estão. Seria bom perceber as propostas de uns e outros para o futuro desta colecção (sem ser a venda) e ouvir da parte do governo uma boa e sólida explicação para o (muito) atrapalhado processo de saída das obras do país. Pois se juntarmos este caso, ao do Crivelli parece que, para o governo, não temos a necessidade de uma Direcção Geral do Património Cultural e podemos dispensar a chatice que são os pareceres contrários às deliberações de S. Bento.

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