Da nossa Memória

Não saberão todos os meus amigos e leitores, mas eu sou um Espinhense de gema. Nasci, fui criado e vivi os meus primeiros 32 anos na (antiga) Rainha da Costa Verde, cidade banhada pelo Atlântico, pequena, a 20 km do Porto (aproximadamente), encaixada entre os enormes concelhos de Vila Nova de Gaia, Santa Maria da Feira e Ovar. Cidade que se orgulha(va?) da sua organização quadricular em ruas paralelas e perpendiculares ao mar, às quais se deram números, em vez dos (muitas vezes imerecidos) nomes habituais na maior parte das cidades portuguesas. Esses ficaram para os liceus, escolas, pavilhões, estádios, bibliotecas e outros edifícios (aos quais já vamos) e para a parte norte da esplanda que recebeu o nome de dois famosos atletas da terra, mas que toda a gente conhece por esplanada e pronto.

À minha terra chega-se pela rua 19, 24, 62 ou 20 e podemos facilmente perceber para onde queremos ir se soubermos que as ruas paralelas ao mar são números par e as perpendiculares são números ímpar. Se soubermos em que rua estamos e a próxima com que se cruza, é muito simples sabermos o caminho a tomar.

Espinho tem tudo para ser uma cidade com um nível de vida excelente. Tem tudo ao pé, a proximidade ao Porto ajuda nas falhas e não é um simples dormitório. No entanto, é com tristeza que tenho visto, ao longo de muitos anos a sua degradação acentuar-se. São ruas estragadas, edifícios públicos e privados a degradarem-se, comércio a fechar, a frente marítima sempre na mesma (e em parte para pior), a infeliz requalificação do recinto da feira, a construção do tribunal naquele local, a envolvente do Centro Multiusos, enfim são vários os pontos que podemos verificar que demonstram a crise que a cidade vive. Por outro lado também podemos ver os números e verificar que Espinho tem perdido habitantes ao longo dos últimos anos (eu sou um deles e conheço bastantes mais) e está a ficar uma cidade envelhecida.

Podem os meus amigos dizer (quem conhece) que não tivemos uma boa Câmara durante muito tempo, podem dizer que também não temos agora ou que agora temos mas leva tempo a recuperar o que se perdeu. Podem até dizer que é um processo normal, mas, na minha opinião, a justificação é simples e abrange não só a cidade como todo o país. O principal factor que nos leva a este ponto é a ausência completa e absurda (continuada ao que vou vendo) de uma estratégia, de um rumo, de um caminho a seguir que perdure para além de cada mandato municipal e esteja acima de mesquinhos interesses pessoais e partidários.

Claro está que esse rumo exige planeamento e capacidade de execução. É certo. Mas se nem a perspectiva do rumo temos, como o podemos planear? É, a meu ver, angustiante!

Serve este pequeno intróito para vos falar de (mais) uma chaga que podemos ver na nossa cidade sempre que entramos pela rua 19 (é sempre o meu caminho de entrada) e estamos quase a chegar ao tribunal: o Palacete Rosa Pena.

Este palacete é um dos edifícios emblemáticos de Espinho. Confesso que desconheço a sua história, mas penso ter lido algures que foi mandado construir por emigrantes brasileiros (os brasileiros de Torna Viagem) na década de 30 do século passado e é sempre apontado como um excelente edifício de arquitectura da época (confesso que os meus conhecimentos não me permitem afirmar nada com grande certeza sobre o edifício). A dada altura foi utilizado como escola e é dessa altura que eu guardo as melhores memórias do Palacete Rosa Pena. Tinha aulas de educação física (num pequeno ginásio que foi construído atrás e entretanto demolido), de Religião e moral e penso que de uma ou outra disciplina. Hoje o Rosa Pena está assim:

© Ruin’Arte

E o assim pode ser visto por dentro e por fora no interessante projecto que é o Ruin’Arte da autoria do Gastão Brito e Silva que vai pondo a descoberto a forma miserável e triste como cuidamos da nossa Memória Colectiva.

Sobre o Palacete Rosa Pena queria apenas dizer que a Câmara Municipal de Espinho podia fazer melhor. Podia ter usado este edifício para o Museu da Cidade, em vez de o colocar no FACE, por exemplo. Percebo que o edifício que é propriedade de privados seja valioso e que os seus proprietários queiram ser compensados pelo seu valor (um quarteirão em Espinho é um valor astronómico a avaliar pelo que se pede por um T3 no centro da cidade), mas será que não haveria forma de os conseguir compensar e acrescentar à cidade um pouco da sua memória? Não podiam ser os proprietários compensados com outro(s) terreno(s) ou de outra forma justa? É válido que se possa deixar degradar um edifício destes a ponto de cair e assim não estarmos sujeitos às questões de protecção do património!?

Que me dizem vocês?